quinta-feira, 23 de junho de 2011

A BÍBLIA NA IGREJA ANGLICANA

Para nós anglicanos a Bíblia é a principal fonte da nossa fé e prática. Ela é a palavra de Deus (Mt 4,4). Uma palavra tem a força e o valor daquele que a pronuncia. A palavra humana pode errar e enganar, pois o ser humano é fraco e não oferece segurança total. Mas a Palavra de Deus, quando trata das coisas espirituais, não erra e nem se engana. Por isso ela é um lugar seguro que sustenta a vida de quem nela se agarra e nela se orienta (2Tm 2,16). Mas o que significa dizer que a Bíblia é a Palavra de Deus para nós? Foi Deus mesmo que pegou uma caneta e papel e a escreveu para nós? Claro que não. A Bíblia não caiu pronta do céu. Ela surgiu da terra, da vida do Povo de Deus. Surgiu como fruto da inspiração divina e do esforço humano. Quem escreveu foram homens e mulheres como nós. Colocaram no papel o que sentiam no coração. A maioria deles nem sabia que estava sendo inspirada por Deus. A ação do Espírito Santo pode ser comparada ao sol e ao vento: seus raios invisíveis esquentam a terra e fazem crescer as plantas de baixo para cima. Já o vento a gente não vê, mas senti. Assim a Bíblia é fruto do vento invisível de Deus que moveu homens a agir, falar ou escrever.
O primeiro livro de Deus
A Bíblia é a única forma de Deus se comunicar conosco? Claro que não. Nem mesmo é a primeira. O primeiro livro que Deus escreveu para nós foi a Natureza, criada pela sua própria Palavra. Deus quer comunicar-se conosco através do dia a dia, de nossas lutas e esperanças. Mas os seres humanos pecaram e criaram um mundo tão torto que já não conseguem ouvir a voz de Deus no mundo em que vivemos. Por isso Deus escreveu um segundo livro que é a Bíblia. O segundo livro não veio substituir o primeiro. Deus não veio ocupar o lugar da vida, mas nos ajudar a entender o seu sentido. Por isso quem estuda a Bíblia, mas esquece a realidade do povo, não se preocupando com a justiça ou a melhoria da vida, é infiel a Palavra de Deus e não segue corretamente a Jesus e agi como os fariseus, que conheciam a Bíblia de cor, mas não a praticavam.
Como estudar a Bíblia
O estudo da Bíblia deve ser feito com muita seriedade e disciplina. É como uma conversa que temos com Deus. Ora, quando a gente conversa com alguém, deve tomar o cuidado de não distorce as palavras do outro. Assim também deve ser com a Bíblia: não podemos colocar as nossas idéias dentro da Palavra de Deus. Primeiro é preciso procurar entende o que realmente ele quer me dizer naquele texto. Para isso devemos seguir os “seis passos”:
1. Quem é que está falando no texto e a quem?
2. O que ele está querendo dizer e por quê?
3. Qual era a situação que ele estava passando?
4. Como ele fez para dar o seu recado?
5. Que lição ele quis transmitir?
6. Como essa lição pode ser aplicada hoje na minha vida ou na vida da comunidade?
A divisão da Bíblia
A Bíblia está dividida em duas grandes partes: O Antigo Testamento, que se abrevia AT, contém os livros que narram a história do povo da Bíblia e foram escritos antes de Cristo (a.C.). Correspondem à primeira etapa, ou seja, Primeira e o Novo Testamento, que se abrevia NT, contém os livros que narram a vida de Jesus e das primeiras comunidades cristãs. Contam a história do novo Povo de Deus e foram escritos depois de Cristo (d.C.). Correspondem à segunda etapa, ou seja, Nova Aliança.
Uma biblioteca diferente
A palavra Bíblia vem da língua grega e indica o conjunto de muitos livros. Foi escrito em hebraico, aramaico e grego. Seu tempo de composição durou aproximadamente 1600 anos, com um total de 40 autores aproximadamente. De fato, a Bíblia é uma biblioteca de 73 livros de épocas, autores e estilos diferentes. Para os protestantes 66 livros.
O Antigo Testamento
O Pentateuco – Os primeiros cinco livros do AT são chamados Pentateuco. É uma palavra da língua grega que significa cinco livros. Eles contêm a Lei da Primeira Aliança. Eles são chamados também de TORÀ (= Lei). São eles:
• Gênesis (Gn)= Começo. Descreve o fato das criações de todas as coisas
• Êxodo (Ex)= Saída. Reflete sobre a saída do povo hebreu do Egito sob a liderança de Moisés, Aarão e Miriam.
• Levítico (Lv)= Levita. Traz reflexões e leis referentes ao culto (os levitas) e às obrigações dos sacerdotes do Povo da Bíblia
• Números (Nm)= Lista. Este livro começa contando o número dos habitantes de Israel. Faz um recenseamento.
• Deuteronômio (Dt)= Segunda lei. Traz as reflexões sobre a releitura da lei e sua nova proclamação. Faz um convite a uma vida de conversão e penitência.
Livros históricos – São 16 os livros históricos (12 protocanônicos: Josué, Juízes, Rute, 1 e 2 Samuel , 1 e 2 Reis, 1 e 2 Crônicas, Esdras, Neemias e Éster e 04 deuterocanônicos: Tobias, Judite, I e II Macabeus) e narram a história da formação do Povo da Bíblia com a vida, nome, lutas e a fé de seus heróis e do próprio povo. Os assim chamados livros históricos ocupam a maior parte do Antigo Testamento. Neles encontramos a história de Israel e do judaísmo, desde a conquista da terra prometida até quase a época do Novo Testamento.
Livros sapienciais – São 07 os livros sapienciais ou de sabedoria (05 protocanônicos: Jô, Salmos, Provérbios, Eclesiastes e Cantares e 02 deuterocanônicos: Sabedoria e Eclesiástico). Nesses livros encontramos reflexões e expressões de sabedoria, poesias, cantos, orações, hinos, provérbios nos quais o povo registra seus sentimentos e expressa sua sabedoria tirada da experiência da vida. A espiritualidade de Israel é apresentada, por exemplo, no Livro dos Salmos, uma coleção de 150 orações que refletem as mais diversas situações da vida do indivíduo e do povo. São verdadeiros modelos para aprendermos a fazer a nossa oração.
Livros proféticos – São 18 os livros proféticos (17 protocanônicos: Isaías, Jeremias, Lamentações de Jeremias, Ezequiel, Daniel, Oséias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias e 01 deuterocanônico: Baruc). Os livros proféticos testemunham a vida e atividade de homens que possuem fé profunda e vigorosa; homens que procuram levar o povo a um relacionamento sempre renovado e responsável com o Deus que julga e salva. A literatura profética pode ser dividida em profetas maiores e profetas menores. Não porque uns sejam mais importantes que outros, mas simplesmente pela extensão de seus escritos. Os profetas maiores são 04: Isaías, Jeremias, Ezequiel e Daniel.
O Novo Testamento
O Evangelho, como Mensagem de Salvação, é um só. Mas foi escrito por quatro evangelistas: Mateus (Mt), Marcos (Mc), Lucas (Lc) e João (Jo). Evangelho é uma palavra da língua grega e significa Boa nova, Boa notícia. Os evangelhos, portanto, trazem aquilo que as diferentes comunidades guardaram e refletiram sobre Jesus – Boa Nova do Pai e Boa Notícia da Salvação-, sua pessoa, seus ensinamentos e suas atitudes. Assim temos quatro narrativas diferentes. Mateus, Marcos e Lucas são também chamados de evangelhos sinóticos (=Ver do mesmo lugar) porque colocados em colunas paralelas se pode perceber muita semelhança entre eles. Já o estilo do evangelho de João é diferente.
Cartas – São 21 escritos que se apresentam na forma de epistolas (cartas), endereçados a determina pessoa ou comunidade cristã. São divididas em Paulinas, católicas e pastorais. As epistolas visavam responder a dificuldades e dúvidas dos primeiros cristãos e suas comunidades.
Cartas de Paulo –A maioria das epistolas do NT são de autoria de Paulo (entre 6 e 14 delas). Nessas cartas encontramos um pouco da vida do apóstolo, sua pregação, seu trabalho, sua missão, problemas e orientações na organização das comunidades. As cartas de Paulo são mais antigas que os evangelhos. O primeiro escrito do Novo Testamento é a primeira carta aos Tessalonicenses. As cartas chamadas pastorais – por se dirigirem aos líderes, ou seja, “pastores” das comunidades – são a primeira e a segunda a Timóteo e a carta a Tito. As cartas chamadas católicas – porque não se dirigem nem a uma comunidade e nem a um líder, mas a todas as igrejas cristãs (católico significa universal) – são a carta de Tiago, a de Judas, as duas cartas de Pedro, e as três cartas de João. A “carta” aos hebreus é de autor desconhecido. Essa carta faz uma reflexão teológica sobre Jesus Cristo, o grande sacerdote, mediador entre Deus e o povo.
O Apocalipse (abreviado Ap) – É um livro escrito num estilo simbólico (apocalíptico) que reflete sobre a presença de Jesus na história e na vida das comunidades em tempo de perseguição. Jesus é o Senhor, o Dono da história. A palavra apocalipse é da língua grega e significa tirar o véu, revelação. O Apocalipse é o último livro da Bíblia.
A diferença entre a utilização da Bíblia entre os Católicos, Protestantes e Anglicanos.
Os Católicos Romanos utilizam a Bíblia, com 73 livros, como base de sua fé e lêem os livros “deuterocanônicos” (= colocados na lista depois), que para eles também são igualmente canônico, que são os livros da Bíblia hebraica escrita em grego (Tb, 1 e 2 Mc, Eclo, Jud, Sab e Baruc). Os Protestantes adotam a tradução da Bíblia hebraica, sem os 07 livros em grego, que eles chamam de “apócrifos” (= secretos ou escondidos). Por isso suas bíblias têm 66 livros. Nós Anglicanos pelo nome de Escritura Sagrada entendemos os Livros Canônicos do Velho e Novo Testamentos, de cuja autoridade jamais houve qualquer dúvida na Igreja, ou seja os “protocânonicos”, como chamam os católicos romanos. E os outros Livros “deuterocanônicos”, como chamam os católicos romanos, ou “apócrifos”, como chamam os protestantes, a Igreja os lê para exemplo de vida e instrução de costumes, mas não os aplica para estabelecer doutrina. Assim sendo os Anglicanos podem utilizar tanto as Bíblias editadas pelos católicos romanos, quanto pelos protestantes.


0 comentários:

Postar um comentário