quinta-feira, 23 de junho de 2011

OS SACRAMENTOS NA IGREJA ANGLICANA


O que é um sacramento?
O termo “Sacramento” (sacramentum) é de origem latina e apareceu na Igreja no século III, com Tertuliano. No Novo Testamento a palavra foi usada para traduzir “mysterion” (mistério, p. ex. Ef 5,32). Segundo a famosa definição de Santo Agostinho “Sacramento é um sinal externo e visível de uma graça interna e invisível”. Portanto, sacramento é todo ato da Igreja capaz de transmitir graça. O maior exemplo disso é a eucaristia. Deus comunica a graça da presença de Cristo glorificado (sacramentado) através do simples ato de comer o pão e beber o vinho. O sacramento pressupõe é a crença na Encarnação de Deus no Verbo, que é seu Filho.
Cristo sacramento de Deus, Igreja, sacramento do mundo.
Para os anglicanos a realidade toda é um “Universo Sacramental” (Arcebispo William Temple). Portanto Deus vem ao nosso encontro através de eventos na natureza e na história. E o maior de todos esses eventos foi a Encarnação de seu Filho. Assim a vida visível e histórica de Jesus Cristo é o supremo sacramento do amor divino. E a Igreja, em união com Cristo, é o Sacramento (meio de graça) de Cristo para o mundo e a humanidade.
Economia divina e validade sacramental
A partir do evento de Pentecostes, a Igreja inaugura sua manifestação ao mundo. A Economia Sacramental, portanto, é a ministração dos frutos do mistério pascal de Cristo, através da liturgia. Em Cristo, a economia iniciada por Deus no início, chega ao seu ápice (Hb 1. 1-4). Na liturgia da Igreja celebra-se o mistério pascal, pelo qual definitivamente Deus comunicou sua graça ao mundo e às pessoas. Esta comunicação não se prende ao passado, mas permanece presente na vida das pessoas até a consumação dos séculos. Assim como Cristo foi enviado pelo Pai, ele próprio envia seus apóstolos, apara continuarem a obra da salvação por atos e palavras (Mt 28, 16-20). Dessa forma, a Igreja como continuação do ministério sacramental de Cristo, torna-se despenseira da economia sacramental. Nessa tarefa, o Espírito Santo desempenha papel fundamental. É ele quem torna presente o Cristo vivo na Igreja e capacita-a para o desempenho de sua missão. Uma questão que tem ocupado e que ainda ocupa o pensamento das pessoas é a eficácia dos Sacramentos. Nossa Igreja defende que se um sacramento é ministrado na forma prescrita, na intenção/necessidade e com os elementos corretos, então ele é eficaz, independente dos méritos de seus ministros (ex opero operato). A bondade de Cristo agi “mesmo através de um mau ministro”. Como uma oferta de Deus para a humanidade, os sacramentos exigem uma resposta de seus destinatários. Esta resposta é a fé com que os recebem. Há, neste sentido, uma “cooperação” entre os sacramentos e a fé, ambos se pertencem e se fortalecem.
Os sacramentos maiores
Desde os tempos primitivos, uma especial importância tem sido dada ao Batismo e a Eucaristia, claramente referidos nos Evangelhos. Os demais, a despeito de não terem referencia explicita, são comumente aceitos como Sacramentos, não havendo nenhuma ordenança contrária a eles. Pelo contrário, foram estabelecidos pelos apóstolos e seus sucessores.
1. Batismo, o começo da eternidade.
Chamada comumente de Sacramento da Iniciação, o batismo é o começo da nossa vida de fé. Por ele somos regenerados como filhos e filhas de Deus, enxertados no Corpo de Cristo, que é a Igreja, e nos tornamos participantes de sua missão. No batismo nos ligamos definitivamente a Cristo (Rm 6, 3-4). Nossa Igreja batiza pessoas de qualquer idade, desde que não tenham sido ainda batizadas em alguma Igreja Cristã (Ef 4, 1-6) O Batismo é especialmente celebrado durante um dos ofícios aos domingos, de preferência na Eucaristia, com a participação de toda a comunidade sendo que ali pode ocorrer a Primeira Comunhão do batizando. Cada elemento da celebração batismal tem seu significado. A água representa a purificação de nossos pecados e, igualmente a nova vida. O óleo representa a unção do Espírito Santo que nos investe do sacerdócio universal. O Círio, a vela, representa a iluminação do batizando, em oposição às trevas do pecado e o compromisso de iluminar o mundo como discípulo de Cristo.
2. Eucaristia, o banquete celestial.
A Santa Ceia ou Santa Missa é o ponto central de nossa liturgia. Instruída pelo próprio Cristo (“fazei isso em minha memória”), representa um “aperitivo” da comunhão plena entre o céu e a terra. O Sacramento do Corpo se refere a toda a Igreja, comunidade – comunhão criada pelo partir do Corpo de Cristo. Nele muitos são um só Corpo e um só Pão (1 Cor 10, 16-17). Nessa perspectiva, a Eucaristia oferece tudo o que é necessário para a vida comunitária da Igreja. Ouvirmos a Palavra, que nos orienta para a vida, vivemos a partilha afetiva com outras pessoas, expomos a Deus as necessidades do mundo e as nossas próprias, somos alimentados para prosseguirmos na missão e renovamos nossas confianças nas promessas do Pai Celestial. Nossa Igreja entende que Cristo é o dono da mesa. Por isso todos os batizados são bem vindos. Em obediência ao seu mandamento sempre comungamos nas duas espécies: pão e vinho.
3. Confirmação, compromisso com o Reino.
O sacramento da Confirmação (ou Crisma) é a continuação do que começou com o batismo. Significa o desenvolvimento de uma maior consciência da natureza do que significa ser cristão. Pó isso que todos os candidatos devem se submeter a um período de preparação e formação catequética. Ele nos une mais profundamente à Igreja e nos capacita com os dons do Espírito Santo. Na nossa tradição ele é ministrado sempre pelo bispo, símbolo da plenitude ministerial. Ele nos confere o poder e a autoridade de confessar publicamente a fé em Cristo.
4. Ordem, serviço ao povo de Deus.
A Igreja como Corpo de Cristo, partilha a sua vida e tem uma função ministerial que deriva d’Ele. Cada cristão tem sua participação neste ministério amplo, chamado a oferecer ações de graça, interceder pelos outros e viver o serviço ao mundo. Dentro desse corpo numeroso, Deus vocaciona homens e mulheres para um serviço especifico dentro da comunidade. A essas pessoas é conferida a responsabilidade de pregar e explicar a sua Palavra, ministrar os sacramentos e exerce autoridade dentro da Igreja. Autoridade, porém, deve estar marcado pelo senso do serviço, menos pelo poder do que pela humildade. A Igreja Anglicana conserva a Tradição da tríplice ordem: Bispos, Presbíteros e Diáconos. Nossa igreja também ordena mulheres ao ministério. No entanto, não re-ordenamos ou re-confirmamos cristãos vindos de outra Igreja Católica.
5. Matrimônio, a partilha do amor.
Amar é uma experiência profundamente humana. Quando se decide submeter esse amor à vontade de Deus, ele assume o testemunho do próprio amor divino (Ef 5, 31-33). No matrimônio, Deus oferece seu próprio amor para fortalecer e nutrir a vida dos nubentes. Partilhar a vida com outra pessoa não é fácil, especialmente na sociedade atual. No entanto, é dever da Igreja oferecer ajuda para que o casal possa experimentar a fidelidade, o serviço desinteressado ao outro e a promoção da dignidade entre ambos. Num mundo marcado por tantas divisões e conflitos, o matrimônio serve como uma contrapartida de comunhão e esperança. A falibilidade das pessoas, as uniões equivocadas e as mudanças sócio-culturais têm levado, no entanto, muitos matrimônios a se desfazerem. A Igreja procura oferecer a essas pessoas o socorro espiritual de que precisam, para refazer suas vidas e experimentarem a misericórdia de Deus. Por isso admite-se a possibilidade de as pessoas, acompanhadas pastoralmente, reconstruírem-se efetivamente com um novo (a) parceiro (a) sem perda do valor intrínseco do Sacramento.
6. Penitência, tempo de recomeço.
Ninguém está livre da ação do pecado. Ele é parte de nossa humanidade. Todos nós já o vivenciamos de alguma maneira. A misericórdia de Deus, porém, se oferece renovadamente ao seu povo, para restaurar os abatidos e abater os exaltados. Por isso a Igreja celebra o Sacramento da Reconciliação. Por ele, podemos ser restaurados pela ação do Espírito Santo e nos fortalecemos para o testemunho de vida. A reconciliação pressupõe sinceridade na confissão, pois para Deus mais importante que a perfeição é a integridade. A confissão está protegida pelo Segredo de Confissão do ministro. A absolvição declarada pela Igreja é a demonstração de que Cristo lhes conferiu poder para mediar a graça de Deus (Jo 20, 22-23). Pela absolvição o pecador é restaurado na relação com deus, consigo mesmo e com a comunidade.
7. Unção dos Enfermos, conforto na dor.
A enfermidade expõe as pessoas à solidão, fraqueza e ansiedade. O próprio Jesus experimentou diferentes estágios de sofrimento. Ele sempre se preocupou em curar os enfermos. Por isso, por meio da Igreja, Cristo nos visita para trazer força espiritual e conforto. O Sacramento da Unção, ministrado pela imposição das mãos e a unção com óleo manifestam a graça interna da bênção e do conforto aos que sofrem. Esta graça é um conforto do Espírito Santo para cura das doenças físicas ou espirituais. Se, porem, não é possível a cura física, o Sacramento tornar-se preparação confortadora para a entrada da pessoa no reino dos Céus (Viático).
Conclusão
Podemos afirmar que os Sacramentos acompanham a vida humana em todos os seus estágios. Cada um se relaciona com uma cada fase da visa (nascimento, crescimento, amadurecimento, envelhecimento e morte), relacionando as necessidades humanas e ao auxilio divino.

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